– Fracasso, DĂşbio! É isso que vocĂŞ Ă©! Poderia ter salvado toda a espĂ©cie humana atravĂ©s de um ato tĂŁo facilitado pelas providenciais circunstâncias e, mesmo assim, nĂŁo conseguiu! Ah, DĂşbio, e ainda tem a coragem de me relatar, em detalhes, o fato que provou toda a imensa incompetĂŞncia de que Ă© capaz! Está vendo, meu amor: um legĂtimo incompetente confesso Ă nossa frente! – gravemente e queixoso, dizia um homem atlĂ©tico, que trajava uma longa e larga tĂşnica escura, a uma jovem, bela, e de movimentos voluptuosos, mulher de corpo escultural envolvido numa roupa justa, preta, com aspecto de napa e peluciosa por dentro, enquanto a mantinha com um braço enlaçada pela cintura. – Deu foi Ă© muita sorte por estar, sem vergonha, aqui inteiro me contando a grande vacilada que cometeu. Pois, ao tempo que vacilava, deveria suspeitar de que o nosso tĂŁo perigoso inimigo poderia ter lido seus pensamentos... algo em tese nada difĂcil diante de tantas e absurdas aptidões dele já reconhecidas por nĂłs... e, entĂŁo, descoberto as suas intenções nada hospitaleiras para com ele.
– Ô Assur! Maneire com o garoto, está o assustando! – disse a mulher lasciva e afagou-se em seu companheiro.
DĂşbio, o jovem que quase apunhalara Gaio com um espeto de gelo, recebia a reprimenda e a humilhação calado, embora nĂŁo mantivesse o queixo, ou linha do rosto, decaĂdos. Os trĂŞs se reuniam em cima de uma grande superfĂcie lisa de pedra, num lugar bem afastado e oculto do Mosteiro dos Esquecidos, porque cercado por uma parede natural de pedra. Logo atrás deles repousava uma grande aeronave cinzenta com a forma parecida com a de uma arraia. Era fim de uma tarde bastante fria, sob um cĂ©u borrado por nuvens avermelhadas.
– NĂŁo, minha guloseima! O assunto de que tratamos Ă© muito sĂ©rio, seriĂssimo! Estou exagerando, DĂşbio? Porque parece que para vocĂŞ eu estou! Parece-me que anda duvidando de tudo o que lhe disse a respeito desse nosso Inimigo! Que acha que o enviei para cá Ă toa!
– Mas, professor Assur, ele de fato não me demonstra ser tão pernicioso assim – disse finalmente Dúbio, sem parecer receoso. – Tem razão mesmo de que quer nos destruir a todos?
Assur desejava perder as estribeiras com o que ouviu, porém se conteve ao custo de algum esforço.
– A imagem de AerĂłpolis destroçada que tanto o chocara e o motivara a vim para cá punir o responsável se apagou tĂŁo cedo assim de sua memĂłria? – Assur tinha uma genuĂna entoação trágica. – Porque, se ainda nĂŁo acredita em mim, pergunte nesse caso aos extraterrestres! Eles irĂŁo voltar, com toda a certeza, e, dessa vez, terminarĂŁo o que começaram. Coisa que poderia ter evitado por tĂŁo pouco, e nĂŁo evitou.
DĂşbio se sentiu culpado, desenvolvendo na carranca atĂ© aquele momento aparentemente impassĂvel uma expressĂŁo de profundo desânimo e desespero.
– Professor, me perdoe, por favor! Prometo que não irei falhar outra vez! Dê-me mais uma chance, por favor!
Assur esfregou com a mĂŁo o rosto cheio de tensĂŁo.
– Infelizmente, nĂŁo tenho outra saĂda, vou ser obrigado a continuar contando com vocĂŞ lá dentro – disse Assur. – Mas nĂŁo volte a tentar eliminar pessoalmente o nosso inimigo.
– Professor, me deixe tentar sim mais uma última vez, tenho certeza de que agora não irei hesitar!
– NĂŁo, nĂŁo, DĂşbio, se já falhou antes, dessa vez que nĂŁo conseguirá mesmo. Neste momento, nosso Inimigo deve estar desconfiando de vocĂŞ, em alerta com vocĂŞ. Se tentar atacá-lo de novo, obterá um revide muito maior e antes que, alĂ©m de acabar com qualquer chance sua de ter valido alguma coisa ao bem da humanidade, poderá piorar bastante a situação de gravĂssimo risco em que já nos encontramos. Mudaremos de tática. VocĂŞ procurará Ă© ganhar a confiança do nosso inimigo. E vai me ajudar a atraĂ-lo para uma emboscada que venho planejando. Vamos encurralá-lo e atacá-lo maciçamente. Para isso, pretendo mobilizar um verdadeiro exĂ©rcito de exĂmios dominadores da TĂ©cnica Elementar. Anarco está cuidando dessa parte, arrebanhando um grande nĂşmero de jovens engajados que nem vocĂŞ, e iniciando-os nas artes marciais com as armas elementares. Com investidas devastadoras partindo de tudo quanto for lado, o tĂŁo poderoso filho de TupĂŁ nĂŁo terá tempo nem para respirar.
De inĂcio, DĂşbio gostou do que ouviu, mas, de repente, algo o preocupou.
– Ele disse poder ouvir as cordas que tecem o cerne de todas as coisas, professor.
Assur, que parecia entusiasmado com planos tĂŁo ambiciosos, ao tomar conhecimento da notĂcia, hesitou penosamente por um instante.
– Viu, Dúbio. O inimigo se fortalece à medida que o tempo passa. Por isso temos de agir com pressa, precisão e suficiência bem além da necessária! – disse Assur. – Agora retorne para o seu meio de... “castrados”, Dúbio – Assur assumiu um ar zombeteiro. – Depois lhe darei mais detalhes de meus novos planos.
Ainda agarrado com a mulher que o acompanhava, Assur entrou em sua aeronave e decolou verticalmente sob a emissĂŁo de um silvo insuportavelmente agudo. A pouca altura, a arraia voadora partiu adquirindo velocidade progressivamente, a uma distância do chĂŁo tĂŁo temerariamente curta que parecia que raspava a acidentada e pedregosa superfĂcie do vasto deserto do Tibete.
Mais tarde, Gaio atravessava com passos de leve um longo corredor abobadado de pedra e mal iluminado por archotes, cruzando porta com porta das silenciosas câmaras individuais de reflexão, quando foi surpreendido com a vinda da direção oposta de um jovem igualmente com pisadas cuidadosamente suaves.
– Dúbio, andando à toa a esta hora ou apenas procurando uma nova porta alheia para a orelha curiosa deitar?! – disse Gaio aborrecido, mas um pouco surpreso com tamanha mostra de sarcasmo de que foi capaz com o de fato prestimoso colega que, apesar de decisivamente envolvido no desfecho feliz do episódio com Maia, ainda lhe era estranho, para não falar de, no fundo, hostil, certamente muito hostil.
Como Gaio, Dúbio estacou imediatamente, estupefato, mas também temeroso e revoltado.
– E você, saindo para caçar alguns carrascos mesmo ciente de que é, de imensuravelmente longe, o maior deles? – rebateu Dúbio entre os dentes, o olhar intenso capaz até de um brilho através da penumbra bruxuleante daquele gélido corredor solitário.
Mas Gaio, por seu turno, tambĂ©m nĂŁo se intimidou: os inflexivelmente hostis olhos do oponente interlocutor sustentou a base de um olhar igualmente frio, por segundos que, de tĂŁo tensos, começaram a fazer DĂşbio suar. Este, ao cadenciar a respiração, parecia reunir toda as suas energias a um possĂvel contra-ataque tremendamente fulminante. Embora desafiante, Gaio, contudo, nĂŁo tinha intenções beligerantes: o que o empedernia era a captação e a medição de toda a agressĂŁo latente no inimigo para com ele. Estava perturbado com tamanho sentimento de Ăłdio de que era capaz de provocar em alguĂ©m.
Já corria mais de um minuto aquele tenso encontro de olhares fĂ©rreos e DĂşbio, ainda conservando-se imĂłvel e extremamente concentrado, nĂŁo se importava em estar se mostrando empapado no rosto mesmo sob aquele rigoroso frio do mosteiro: nĂŁo o temia, contudo o adversário com quem no momento se deparava tinha potencial para agir como um deus conforme acreditavam alguns, ou muitos, principalmente o seu mentor, Assur. Seria verdade? Gostaria de mais de conhecer a prova. Por via de dĂşvidas tĂŁo crĂticas, no entanto, se tivesse de revidar, na verdade, se pudesse, investir-se-ia por inteiro, nĂŁo se pouparia, nĂŁo mesmo.
Mas o feroz embate entre os jovens colegas felizmente se restringiu aos seus olhos, pois Gaio, para espanto de Dúbio, acabou cedendo primeiro, desviando, então, seu antes renhido olhar para continuar a prosseguir calado. Deu as costas inermes ao oponente e este, desconfiado, mas sem também deixar de se impressionar, observou sem reação, mesmo querendo tanto agir, o grande inimigo da existência humana se distanciar lentamente, se dissolver visualmente na penumbra do lôbrego corredor.